FATOS POLÍTICOS RECENTES – até 31 de Janeiro de 2014

By | January 30, 2014

API – Associação Paranaense de Imprensa
em conjunto com
CEB – Centro de Estudos Brasileiros do Paraná

FATOS POLITICOS RECENTES

(e Análise da Conjuntura)
Até 31 de Janeiro de 2014

SUMARIO:

Notícia boa é que o Brasil vai superando o ciclo de turbulências =/= Casos extremos vão da Turquia à Argentina =/= EUA retomam enxugamento da liquidez =/= Governo brasileiro investe em Cuba, aguardando abertura =/= Ucrânia pode estar se partindo =/= Gustavo Fruet viaja e Paulo Salamuni assume a Prefeitura de Curitiba.

Noticia boa:
BRASIL ENFRENTA O NOVO CICLO

Os fatos

No concerto das nações um país tem sucesso ou fracassa, após cumprido um período de tempo, não do dia para a noite. Praticamente livre do risco do rebaixamento de nota de risco (segundo classificação de agencias internacionais), o Brasil agora precisa aspirar ao grau de potência – escreve Henrique Meirelles, o bem sucedido presidente do Banco Central na administração Lula. Potência econômica do século 21, crescendo de forma sustentável em ritmo mais firme do que atualmente que, como declarou em Londres, Alexandre Trombini, o atual presidente do BC, não é suficiente.
Meirelles ajunta que, para se adaptar ao novo ciclo econômico mundial – após ter superado etapas, passado pelo nível dos emergentes e chegado ao grupo dos BRIC – o Brasil precisa de um ajuste em termos de aumento da produtividade e dos investimentos – isto é, de efetivar reformas.
Para ele, a área pública deve obter a mobilização da sociedade para a expansão dos investimentos em infra-estrutura e educação. Na área propriamente privada deve-se mirar a criação de condições para aumentar o investimento, elevar sua competitividade, incentivar a produtividade e focar o empreendimento.
Tudo coroado com a independência (melhor dizer, autonomia legal) do Banco Central.

Os fatos (II)

Meirelles, ex-colaborador e ainda próximo do estamento no poder, tangencia de forma cortês a questão das reformas, mas sua efetivação é condição necessária para o novo ciclo. Em outra linguagem o filósofo Renato Janine Ribeiro escreve que após a inclusão de grupos sociais promovida via consumo (desde o crédito para aquisição de bens e serviços até o financiamento da casa própria com subsídios) o país precisa se dedicar à produção. Outro pensador, Ian Buruma, assinala que a realidade contemporânea da globalização cria uma camisa-de-força sobre os governos nacionais, que limita seus movimentos.
Nessa linha, sociedades que focam apenas o consumo sem cuidar da produção em bases capazes de competição com o meio externo acabam sendo penalizadas. Exemplos à mão: países da Europa Meridional, embriagados com o advento da União Européia e seus generosos programas de financiamento, que acabaram no atoleiro da crise.

Análise

Em nossa vizinhança o caso mais errático de política pública equivocada vem da Argentina. A crise que sufoca o país platino não é de agora: foi gestada há décadas quando a Argentina – empatada pelas reivindicações do setor produtivo (literalmente, o campo) e demandas da população urbana metropolitana (Buenos Aires) -, privilegiou o bem-estar dos apoiadores do governo Perón em desfavor da classe rural agropecuária.
O governo dos Kirchner persistiu nesse viés para o desempate: Em 2004, a Argentina participava com 9,4% na exportação mundial de carne bovina; mas para manter baixo o preço interno para favorecer o consumo da população, o governo aplicou restrições aos embarques. Com isso a exportação caiu 67% e o país chegou em 2013 com participação de 2,3% do total mundial.

Análise (II)

O equívoco se repetiu no trigo: em 2004, exportação de 8,3%; em 2013/4, queda para 2,5% do mercado mundial. Idem para soja, milho e outros itens exportáveis; além de restringir a margem de lucros em outras operações, de eletricidade a ferrovias. Resultado: menos embarques, menos investimentos, igual menos dólares: desequilíbrio cambial, inflação e crise. Aplicando a essa matriz populista a lição de Max Weber (ética da responsabilidade), verifica-se que a conseqüência – provável e futura – de uma política pública incorreta de hoje resultará na crise de amanhã.
E aí, culpar especuladores, banqueiros e financistas, equivale a atirar no mensageiro que traz a carta de cobrança da fatura que não foi paga…

CORRIGINDO A TEMPO

Os fatos

No Brasil o governo Lula teve a virtude de poupar os dólares ganhos no período de bonança (quando surgiu a expansão monetária dos Estados Unidos para enfrentar a crise de 2008 e a China estava em franco crescimento), acumulando reservas da ordem de 370 bilhões de dólares. Tal colchão de liquidez externa mostra sua vantagem agora: Apesar do solavanco da passagem de ciclo o real brasileiro foi uma das moedas relativamente estáveis (neste ano caiu 2,4% ante 6,3% da lira turca ou 18,5% do peso argentino).
A propósito, o déficit efetivo do nosso balanço de pagamentos, ano passado, não chegou a 6 bilhões de dólares (valor que sai das reservas): a maior parcela foi financiada com a entrada de investimento produtivo direto e dinheiro de portfólio para a Bolsa.

Análise

A mudança de ciclo foi percebida pelo governo: o presidente do Banco Central assegurou que prosseguirá no ajuste da demanda via elevação dos juros (para conter a inflação e evitar a fuga de investidores) e a presidente da República, ao comparecer ao Fórum de Davos, reforçou o compromisso de assegurar o controle do orçamento, trazer a inflação no rumo da meta (de 4,5%), manter a economia aberta para os investimentos e, no geral, exercer uma orientação segura no governo.
A presença de Dilma em Davos, antes de tudo com força simbólica, pode ser fundamental para afirmar a aposta do Brasil no crescimento sustentável – condição para a potência econômica do século 21, citada por Meirelles.

EM CUBA, NO AGUARDO

Os fatos

No retorno de Davos a comitiva brasileira foi a Cuba, para encontro da comunidade latino-americana e caribenha de nações e inauguração do porto de Dariel, construído recursos financiados em parte pelo nosso país. Além do aporte inicial de investimentos, Dilma anunciou que o Brasil vai investir mais verbas na ampliação das instalações do terminal e, também, financiar a implantação de empreendimentos de empresas brasileiras na zona econômica criada em torno do porto.

Análise

A presidente justificou essa aplicação, conjugada com a atração de empresas do Brasil para aquele país: com a prevista abertura do mercado cubano os brasileiros querem sair na frente, pondo-se a fazer negócios com o mundo a partir de Cuba. Trata-se de estratégia ousada que, dando certo, trará retornos (e referendada em parte, ainda, pela presença de investimentos da China na economia de Cuba).
O problema é a persistência do viés anti-mercado: discursando na cúpula latino-americana, o líder de Cuba – Raul Castro, atacou o “ganho desmedido” das empresas multinacionais; que remetem seus lucros para o exterior e impactam o balanço de pagamentos. Parece repetição do que dizia, meio século atrás, o então presidente João Goulart, que incluía entre suas “reformas de base”, forte regulamentação para a remessa de lucros.

ENXUGANDO A LIQUIDEZ

Os fatos

Na última reunião presidida por Bem Bernanke o Banco Central norte-americano (o FED) prosseguiu no programa de retirada da liquidez interna, cancelando o montante de 10 bilhões de dólares da ração mensal que era injetada na economia (mediante compra de papeis de empresas endividadas). Como antes o Fed já havia cortado 10 bi desse programa de expansão monetária, agora o “quantitative easy” baixa para 65 bilhões/mês, com viés de continuidade. Na seqüência, após retirado todo o facilitador, há previsão de início da elevação dos juros internos de curto prazo – hoje mantidos em zero por cento.

Análise

Tal enxugamento causa turbulências nos mercados mundiais, afetando principalmente países emergentes com maior exposição ao risco (têm dívida alta em relação ao PIB, déficit na balança de transações, etc). Embora o Brasil sofra os solavancos – com retração de recursos externos em carteira, desvalorização do real, etc – o dano foi mais severo para países claramente “doentes”: na África do Sul a moeda local, ‘rand’, perdeu 26% desde setembro passado; na Argentina o peso caiu 42% no período.
O Brasil não está imune, devido a uma inflação que tende a espalhar, impulsionada pelo quase pleno emprego, especialmente no setor de serviços. Mas nada que uma política prudente – como a prometida pela presidente em Davos – possa desbordar. Há turbulência, mas não crise.

MISCELÂNEA

Enquanto a guerra civil na Síria aponta para o benefício de uma trégua, mediada pela ONU e potências, na Ucrânia o risco de conflito é iminente: país literalmente dividido entre a influência da Rússia e o Ocidente, a pátria ancestral de muitos imigrantes no Paraná corre perigo.

MISCELÂNEA (II)

Trégua também no ambiente político brasileiro, antes do retorno das atividades do Congresso (próxima semana). Eduardo Campos foi cuidar do filho recém-nascido, o senador Aécio Neves dá os retoques no seu plano de governo e a presidente Dilma se ocupa da reforma ministerial, antes de oferecer seu nome a uma pré-convenção do PT.

MISCELÂNEA (III)

Por viagem simultânea do prefeito Gustavo Fruet e de sua vice ao exterior, o vereador Paulo Salamuni assume hoje, interinamente, a Prefeitura de Curitiba. Devidamente escoltado por escoteiros, “verdes” e outros eleitores e admiradores =/= Em Cascavel, reassumiu o prefeito Edgar Bueno, que havia sido afastado pela Justiça Eleitoral. A propósito, está na hora de mudar a esdrúxula legislação que manda empossar o segundo ou terceiro colocado, acaso cassado o titular – o que configura estelionato à vontade majoritária expressa na urna pelo cidadão. Já basta a sobrevivência do voto obrigatório, figura de tutela censitária incompatível com a democracia.

Rafael de Lala,
Presidente da API, pela Coordenação do
Centro de Estudos Brasileiros do Paraná

Ret. FS – Fatos Políticos Recentes em 31jan14

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *